Meus olhos abertos se mantêm na escuridão…

Bachir Hilal (الله يرحمه)

Beirute Noir é uma aventura sem heróis. Suas linhas e entrelinhas são igualmente permeadas pela subjetividade emocional e pela política – e talvez nos mostrem que esses não são polos tão opostos assim. Ao longo de seus quinze contos, a capital do Líbano é o palco, mas os desdobramentos que acompanhamos se ambientam nas paisagens internas de seus narradores e narradoras. A coloração tradicionalmente policial do noir é pintada com os tons obscuros que pairam sobre suas vítimas (e eventuais sobreviventes), resultando numa sequência de depoimentos que nos remete a uma sala de interrogatório. Cada voz lhe atribui uma leitura própria da cidade, resultando numa visão nada convencional do gênero, delineando um verdadeiro noir à la Beirute, um lugar onde “até a chuva se tornou violenta”.

Emolduradas de alguma maneira pela guerra civil libanesa, todas as narrativas expõem diversos efeitos que habitam as almas de suas personagens e alimentam diferentes consequências em seus espaços mentais, remetendo, em última instância, à sua cidade-protagonista. As histórias do livro configuram um quebra-cabeça pouco interessado pela corriqueira maquiagem de atrair turistas; uma colagem de recortes interligados por barbantes tingidos de verde-cedro e vermelho-sangue, como um quadro de filme de detetive onde o leitor é o encarregado de investigar os corpos estirados entre passantes e mastros no asfalto. Talvez a maior convergência desses efeitos seja para a ressignificação daquela que une os traumas e os afetos: a memória.

Nesse sentido, a atmosfera introspectiva do noir serve à encenação da dor abafada e de uma rarefeita ternura. O amor por Beirute é indissociável da lembrança do medo anestesiante da morte que espreita em cada esquina. O pensamento povoado por incertezas se intercala à vida pulsante da capital cosmopolita. Ao lermos os enredos e reflexões expostas nos contos, somos conduzidos igualmente por um ar de normalidade compulsória, uma empatia pelo sofrimento, e um anseio de quem se esforça voluntariamente para esquecer a angústia causada pelo roubo da esperança, além de pinceladas de um senso de humor casual que raramente parece ter o objetivo de nos fazer rir.

Desde seu prefácio, a organizadora Iman Humaydan destaca a sensação paradoxal que acomete os habitantes da cidade e diz que o cenário do livro se expõe como “a lâmina de uma faca”. Quando lemos suas palavras, somos introduzidos a um oásis beirutense que concilia a opulência para poucos e o desamparo para muitos. Nas palavras de Humaydan, Beirute é “uma cidade urbana e rural, de violência e perdão, de lembranças e esquecimento.” Se, naquele instante, tivessem me dito que o texto era sobre o Brasil, eu teria acreditado sem esforço. Para esse leitorado lusófono tropical de 2021 que não se encontra em transe profundo, é (infelizmente) inevitável se identificar com a interação entre o dia a dia que segue e a frustração que é amar uma pátria que instiga tanto desespero, e insiste em nos lembrar continuamente do aparelhamento vil de nossa humanidade. Cumpre com primor o papel do alerta a qualquer povo friccionado contra si mesmo pelas diferenças que não nos propomos a entender, mas sim deixamos faiscar até virarem labaredas incontroláveis. Nossas realidades parecem reunir as mesmas contradições inseparáveis. Ambos sabemos o que é afetar força para não chorar. O abandono nos une aos libaneses.

Cada qual ao seu modo, autores e autoras nos apresentam uma cidade complexa, tomada pelos efeitos corrosivos de um lar acometido pelos conflitos entre famílias, vertentes religiosas, milícias e governos, e pelo ciclo vicioso de corromper e ser corrompido. As ruas escuras de “O bastardo” testemunham o fardo da perpetuação da animosidade fraterna abraâmica, ecoando ares de Caim e Abel. “Tão logo a matança começa e a vida humana perde o valor, tudo é permitido”, diz Adel Uliyan, o atirador de elite aposentado e debilitado, após ter servido num combate que o convenceu da impessoalidade de puxar um gatilho – afinal, eram os alvos que lhe adentravam a mira, e o destino se encarregava do resto. Também debilitado, sr. Ka nos permite contemplar seu amor pelo irmão e a amizade deles com o solícito Ta, para então nos empurrar para a cólera irascível que só o conforto é capaz de disparar; como uma singela homenagem a Najwa Barakat, repetirei sempre que tiver a chance: “Sob a árvore da melancolia” me faz chorar todas as vezes, e por motivos opostos. “As caixas” insiste em nos lembrar que, mesmo em meio ao caos e aos bombardeios, crianças ainda são crianças. A linguagem de intercalações nebulosas de “Dentes Sujos” traduz a distopia do real e transforma Beirute num alusivo da Laranja Mecânica. Hanan nos conduz pela diluição imperceptível do tempo que se iniciou naquele fatídico 20 de janeiro, e insiste em nos lembrar do quanto sua passagem é um produto da nossa imaginação. O conto-ensaio satírico de Rawi Hage contrapõe a aparente banalidade do trigo que sustenta sua “Nação de pássaros” à ostentação dos imponentes carros importados de onde os ricos apontam seus rifles para o céu.

A polifonia dos contos se expressa não só na convivência dos três idiomas – árabe, inglês e francês – representativos da realidade trilíngue da cidade, mas também nas vozes dos narradores e narradoras, cujas entonações se estendem por um vasto espectro que abarca sobriedade, tensão, urgência, sarcasmo, inocência, rancor, metafísica, paixão e muito mais. Enquanto tradutor, os maiores desafios, muito mais do que encontrar uma palavra ou outra no dicionário, estão em preservar a sensação da espreita contínua que se impõe no noir, bem como a oscilação de pontos de vista tão distintos que conseguem nos transmitir suas próprias verdades. Como já me disseram alguns e algumas que tive a oportunidade de ouvir após a experiência da leitura: “Brutal e tocante”.

Beirute Noir é uma coletânea não de investigações de crimes, mas sim de evidências que nós devemos examinar; não tem detetives sagazes, nem chefões de máfia, nem nenhuma femme fatale ostensivamente glamorosa, mas sim seres humanos de carne, osso, lágrimas e, às vezes, sorrisos. Contudo, sobre Beirute, estende-se uma nuvem de tempestade perpassada por um ou outro raio de sol, os quais são frequentemente mostrados como ilusões de ótica que nos permitimos enxergar por nossa gana de manter os olhos abertos. A sociedade da capital libanesa nos apresenta a dinâmica de suas regiões como quem circula por suas ruas arteriais e venosas sem discernir entre glórias e tragédias, nem entre dor e alento. Ainda que a cidade se mostre ancorada ao seu chão, os contos a retratam flutuando entre o real cortante, o cotidiano e o absurdo. Toda essa multiplicidade respira o mesmo ar.

Pedro Criado

Pedro Martins Criado é bacharel em Árabe e Português e mestre em Estudos Árabes pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Estudou língua árabe clássica e dialeto egípcio no Instituto Francês do Cairo. Trabalha como tradutor e professor e vive em São Paulo.

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