Olho para mim e não sei qual delas sou eu.

Existe mesmo um “eu”? Ou se trata daquele turbilhão estrondoso? 

Avalio bem as várias possibilidades, bem como a intensidade de sua insistência. E se tudo que interfere em nossas decisões – entre hormônios, pensamentos que não são nossos e inúmeras coincidências – seja o que nos faz permanecer no estado em que nos encontramos?  

Se há algo que me move, é a paixão. Mas como podemos encontrá-la no caos dessa repetição infinita?

Até nossas canções favoritas repetimos a ponto de perderem a graça. 

Repetimos a nós mesmos e aos outros: nos erros, nos acertos e também na loucura. E se paramos de repetir, então repetimos o parar. 

Estou em contato estreito com a realidade. Não dou mais de cara com a janela, já que a abri para o vento entrar. Tento pedir sabedoria às árvores e à vegetação rasteira, ao passo que me uno com esse absoluto sem me desfazer de nada nem de ninguém.

Sou também nuvem que evapora e derrama, repetindo-se incessantemente. É insano não pensarmos dessa forma, acreditando que somos diferentes do que foi previamente planejado. 

E se há algo que me inspira, talvez seja aquele vento que adverte ser capaz de nos levar quando bem entende. É aquele oceano que se abstém de nos engolir de uma hora para outra. 

Talvez o que me inspira seja o Invisível, o Abstrato. É aquele grande segredo, impossível de se revelar, e que se esconde por detrás de todas as coisas. 

Acho extremamente estranho quem busca um salvador fora de si. Aliás, dou gargalhadas só de pensar num salvador. 

Os caminhos que atravessamos só pertencem a nós mesmos. Até a má sorte coube a nós classificar, documentar e nomear. 

Me pergunto como a realidade tomaria forma se implodíssemos todas as definições e a redesenhássemos. Estamos cheios de probabilidades. Você sempre estará a um só passo de um novo mundo de possibilidades ad infinitum, mas limitado de um lado por você – ponto de partida – e dos outros pelo absoluto.

A tristeza que sinto tão profundamente nada mais é do que tocar este eterno loop do qual não há escapatória. 

Não busco respostas para meus questionamentos nem na filosofia, nem na religião… Na verdade, não busco respostas absolutamente. 

Hoje sei bem que nada é fixo exceto a repetição, que só vou enfrentar quando me lançar nesse seu emaranhado ordenado, fazendo uso de pura imaginação e de sonhos surreais que me vêm ao amanhecer.

Texto traduzido do árabe por Felipe Benjamin.

Yara Osman

Yara Osman é fotógrafa, pianista e formada em odontologia. Nascida na cidade de Latáquia, Síria, chegou ao Brasil como refugiada em 2016. Ministrou palestras e debates sobre refúgio, feminismo, diversidade e sexualidade nos SESC's de São Paulo. Também tocou em vários projetos musicais como: projeto Tananir; Sarau vozes femininas; banda Gurbah; e no grupo "Um sonho", de música persa. Participou na exposição “Gurbah” na Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba junto com os artistas Silvana Macedo e Adel Alloush. Seu trabalho mais recente foi a exposição virtual “Longe de Casa”, na plataforma do Armazém (Coletivo Elza), no evento Mulher Artista Resiste.

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