por Letícia Sé

Aycha Sleiman, de 21 anos, é a brasileira de origem libanesa por trás da página Des-orientese (@des.orientese) no Instagram. Há um ano, o perfil tem educado os mais de 3,8 mil seguidores – na maioria, brasileiros – sobre a diversidade no mundo árabe, o orientalismo nas atitudes cotidianas e sobre o feminismo oriental. “Feminismo, decolonialidade, cultura do SWANA”, diz a bio do perfil.

Eu não sabia o que era “SWANA”, mas, dias depois de entrevistá-la, Aycha compartilhou nos stories de sua página a explicação da sigla: “Southwest Asia and North Africa” (“sudoeste da Ásia e norte da África”). O conceito é uma nova maneira de renomear o genérico “Oriente Médio”, título que o Ocidente deu para o mundo árabe sem lidar com as pluralidades das regiões. Mas nem sempre Aycha teve um bom relacionamento com sua ascendência árabe, sendo a literatura árabe-brasileira o meio para converter a dor em orgulho.

Aycha, que hoje estuda relações internacionais na UFABC, era chamada de “mulher bomba” na escola, tinha costumes diferentes dos amigos e passava férias na cidade paterna de Halba, no extremo norte do Líbano, com frequência. As viagens, geralmente no mês do Ramadã, foram incômodas durante muitos anos, por Aycha comparar seu lazer com o dos amigos brasileiros e ter dificuldade em entender sua identidade meio árabe.

“Eu queria ter um nome comum, que não fosse exótico”, diz sobre essa época de opressão em forma de piadas. Aycha é o nome da terceira esposa do profeta Maomé e, na música pop árabe, é musa de uma das canções do argelino Cheb Khaled, que fez sucesso nas trilhas sonoras de novelas da TV Globo.

“Não tive uma forte presença do islã na minha criação, mas sim, uma ausência do cristianismo, que me diferenciava dos colegas. Também não tinha o costume de sair muito”, compara. Seu lado libanês, nacionalidade do pai, era um atrativo aos professores que tratassem de guerras no mundo árabe nas disciplinas escolares. “Quando se comentava o noticiário, eu era convidada a falar sobre o assunto na sala, os professores demandavam uma participação”, lembra a influencer, sem demonstrar felicidade com o fato.

Essa agressão externa lhe gerou bloqueios que duram até hoje, como a dificuldade em aprender a língua árabe. E mesmo atuando no campo das relações internacionais, ela não pretende pesquisar o SWANA, por acreditar que a proximidade emocional complica a imparcialidade do trabalho.

A armadura que vestiu na adolescência foi a literatura. Aycha conheceu os textos de  Edward Said, o palestino que fundou nas ciências humanas o conceito de Orientalismo – nome também de sua principal obra. Para Said, o Orientalismo é a caricatura ora exótica, ora ameaçadora sobre a imagem do árabe, feita pelo Ocidente com propósitos coloniais. A página de Aycha, Des-orientese, é um convite a se livrar desses estereótipos.

Em seguida, outros autores passaram pela vida de Aycha. “Fui também ler o Raduan Nassar. Acho incrível o Lavoura Arcaica, aquela cena de dança. Um brasileiro pode ler aquilo e achar que é uma dança qualquer, mas, para mim, é muito claro que é o dabke. A centralidade da família, a figura do pai onipresente, a religião austera. Os livros foram refúgios que eu encontrei”, recorda ela, lembrando de como se sentiu representada pela obra. Os livros foram a empoderando. No entanto, o autor que dá brilho aos olhos de Aycha é Milton Hatoum.

Aycha não se lembra como, mas soube que o escritor amazonense era filho de libaneses e que sua literatura tinha esse cenário. Surgiu, instantaneamente, uma ansiedade de lê-lo: apesar de comprar livros pela internet, ela não podia esperar chegar pelo correio. No dia seguinte, fuçou a biblioteca da escola e encontrou Dois Irmãos, que leu com muita vontade.

Mas ela quis algo mais: encontrar Hatoum pessoalmente.

“Eu vi na página do Facebook do Icárabe [Instituto da Cultura Árabe] que promoveriam um evento com ele. Acho que foi na época que a Globo fez a adaptação para a TV do livro Dois Irmãos e a palestra seria sobre isso. Nessa época, eu estava me engajando muito e sendo muito vocal na escola, sempre falando sobre isso nas aulas de geografia, falando sobre conflitos. Pensei que seria uma oportunidade legal mostrar para o meu colégio que é um tema muito plural, com coisas que eles não conhecem e aproveitar que está em português – que o Hatoum é um brasileiro como eu e é um grande nome da literatura. Seria uma oportunidade incrível. Conversei com a coordenadora da escola e ela disse: ‘Que legal, vamos sim!’ e esqueceu o evento. Simplesmente deletou da mente. Mas a gente teria a semana cultural do colégio, em que cada ano as salas têm um tema e precisam fazer tarefas relacionadas à proposta. E nesse ano, foi uma coincidência incrível: o tema era ‘regiões do Brasil vistas pela literatura’. Para a região Norte, o autor escolhido a ser trabalhado foi o Milton Hatoum.

Ninguém da escola conhecia ele, só eu. Fiquei empolgada, mas não peguei esse tema, porque era por sorteio e cada sala pegou um autor – no meu caso, peguei São Paulo, estudamos o Monteiro Lobato. Mas foi em cima: a palestra do Hatoum seria naquela semana. Eu tinha amigos na turma que pegou o tema sobre ele. Falei para eles: ‘Eu quero ir, vamos?’. Convidei minha amiga, ela passou o convite para a sala, e eu fui com uma turma que nem era a minha – eu estava no terceiro ano do ensino médio e esse grupo era do segundo, tinha alguns conhecidos. A gente foi, levei a sala inteira. Eles conversaram com o Hatoum, fizeram algumas perguntas e ele explicou alguns pontos da obra para a turma usar nas apresentações do colégio – a gente tinha que fazer apresentações teatrais, representar um capítulo do livro, mergulhar nisso. O tema do trabalho era o Brasil, e com o Milton Hatoum, a turma queria entender como o Norte do Brasil era visto, Manaus, principalmente. Já eu estava mais interessada no aspecto da diáspora, da identidade, isso não foi tratado no trabalho da turma. Mas estar ali, ouvindo ele falar, foi incrível. 

Eu pensava: ‘Ele parece comigo! A pele morena, cabelo escuro, o jeito de olhar parecido’. Fiquei encantada, e até dei uma bronca na coordenadora depois, falei: ‘Você esqueceu, foi muito legal, muito didático, a escola perdeu uma chance’.

A gente até o convidou a ver a apresentação, mas ele não tinha disponibilidade, porém foi super fofo – muito sério e tímido, mas muito gentil. Nesse momento, último ano da escola, eu estava entrando de cabeça nesses assuntos, procurando filmes, lendo livros, militando para os meus amigos. Passei o ano inteirinho os convencendo a aderir ao BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel]. Todo mundo me achava louca, ninguém entendia o que eu estava falando, e eu precisava fazer as pessoas me ouvirem, e isso foi muito importante. Parece que o Des-orientese tinha que acontecer, uma hora tinha que surgir.”

A página que criou e alimenta diariamente expande o conhecimento para o público leigo. Naquele momento da adolescência, Aycha não parou de ler sobre cultura árabe, buscando conhecimento e representatividade, fato pelo qual elogia a Editora Tabla pelo trabalho.

Ainda sobre Hatoum, ela diz que, mais tarde, conheceu o livro Relato de Um Certo Oriente. “Foi o pontapé para muita coisa que veio em seguida, porque tinha aquela tensão no livro com o Brasil, a cultura diaspórica, essa cisão identitária entre dois ou três lugares, sem pertencer a nenhum.”

A fundadora do Des-orientese carrega esse sentimento, a divisão de si em duas pátrias. A rebeldia contra sua identidade árabe na adolescência, depois de transformada pela literatura, deu-lhe o direito de sentir que as viagens de férias eram um reencontro com o que sempre foi. “No Líbano, eu me senti parte da paisagem. Parecia que aquelas montanhas, aquelas árvores, sempre tinham feito parte de mim”.


Letícia Sé é jornalista e se dedica a temas do mundo árabe. É autora de Baulistanas, livro sobre a imigração de mulheres árabes ao Brasil. Em 2016, cobriu a Conferência da ONU Sobre Mudanças Climáticas no Marrocos, país onde também estudou a língua árabe. É criadora do blog SistemaMundo.com e compartilha conteúdos no Instagram @leticiase.blog.

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