Trinta e sete anos atrás, eu nascia no campo de Yarmuk, lugar de geografia peculiar, semelhante a todas as geografias onde vivem os palestinos. Essa peculiaridade pode até variar ou se diversificar, mas o espaço exíguo continua sendo sua principal característica. Eu, criança de quatro anos, não tinha lugar para brincar a não ser pular nas escadarias do prédio no qual minha família morava. Meus amigos travessos e eu subíamos pulando os degraus até o andar de cima, onde morava o italiano, o militante internacional Carlo Sebastian, e de lá, competíamos, descendo as escadas pulando os degraus, de dois em dois, até o térreo. 

Durante anos, esse foi nosso único passatempo; mesmo perigoso e tedioso, esse jogo teve no meu coração um lugar especial e foi associado à primeira imagem do meu pai que ficou impressa em minha mente e continua viva até hoje. 

Era um dia de maio de 1988, e eu estava alguns degraus na frente da minha vizinha na nossa competição em direção ao segundo andar. Eu fui parado pela figura de um homem belo, alto, vestido com a farda dos fidaíyin, usando uma bota preta e amarronzada pela lama. Não o reconheci de pronto, fiquei paralisado, mas ele se inclinou, me abraçou, e me apertou forte contra o peito. Seus olhos estavam cheios d’água. Fiquei surpreso, espantado, e me desliguei de tudo e de todos que participavam comigo da brincadeira maluca ao meu redor. Parado ali, uma estranha energia de amor me invadiu e imprimiu em minha mente aquela imagem que nunca mais viria a esquecer. Imagem vívida, pulsante. Talvez seja esse o motivo de eu não gostar de fotografias e de zombar de todas as máquinas fotográficas, pois acredito fortemente na capacidade da mente humana de imortalizar os momentos.

Meu pai me carregou e me levou para casa. E este pai, descrito por um de seus amigos como “dono da razão de um velho experiente e das emoções de um jovem cheio de esperança”, logo percebeu que tinha de lidar com essa primeira impressão de sua imagem em um uniforme militar e com o que isso poderia causar na mente de uma criança de quatro anos. No começo da noite, puxou-me mais para perto, me abraçou e pediu para que eu repetisse com ele:

então…
anote no topo da primeira folha
eu não odeio ninguém
não agrido ninguém
mas se ficar com fome
como a carne de meu agressor
cuidado… cuidado…
com minha fome e com minha ira. 

Poucos dias depois, eu já tinha memorizado o trecho e começado a declamar para todo o “bando”, e eles repetiam comigo, enquanto pulávamos os degraus, de dois em dois, subindo e descendo. Chegamos então ao segundo trecho que teve um efeito ainda mais importante na formação das bases da minha consciência. Ele declamava e eu repetia:

anote: sou árabe!
o número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil
número de filhos: oito
e o nono… chegará depois do verão!
isso te irrita?

E seguimos assim, até que chegamos ao fim do poema. Uma semana depois, eu já o declamava e todo o bando de crianças travessas repetiam comigo enquanto pulávamos os degraus, de dois em dois, subindo e descendo. Eu gostei da brincadeira do meu pai, porque o poema me fez passar na frente dos meus pares. E ele, meu pai — Allah yerhamu —, também gostou desse jogo, pois nele encontrou seu jeito de formar minha consciência e aprimorar minha língua.

Os poemas continuaram e o amor por Darwich se instalou no meu coração. Suas palavras ficaram gravadas na minha alma e, a cada noite de quinta-feira, ele trazia um novo poema. Cresci. Comecei a folhear sozinho os livros de Darwich e deles escolhia os poemas que mais me agradavam. Mais tarde, as noites de quinta-feira foram transformadas em sessões de discussão a respeito da evolução da linguagem de seus poemas, e outras vezes mergulhávamos na leitura e na análise do avanço político e literário do texto de nosso poeta predileto. Meu pai sempre cuidou para que eu tivesse meus próprios exemplares dos livros de Darwich, chegando a conseguir para mim um exemplar especial do livro Estado de sítio, assinado pelo poeta, em Beirute, no ano de 2002. Eu dedicava àquele exemplar um cuidado especial. Li todos os poemas, e durante as sessões, meu pai e eu relíamos e analisávamos um por um, discutíamos seu amadurecimento literário ao compará-los com os poemas do Louvação à sombra alta — até porque meu pai viveu o cerco a Beirute em 1982, imposto pelas forças de ocupação israelenses. Já eu vivenciei o cerco de Ramallah no ano de 2002, com todos os detalhes, pelas ondas do rádio e pela tela da televisão. O cerco era o mesmo, e quem o impunha e quem o sofria também eram os mesmos.

este cerco se estenderá até ensinarmos ao inimigo
alguns exemplos da nossa poesia antiga
(…)
este cerco se estenderá até que
quem o impõe, igual ao que o sofre,
sinta que o tédio é 
um traço humano

Meu pai, sendo um grande conhecedor de literatura árabe, acreditava fortemente que cada tribo tinha um poeta que era também seu profeta. Os palestinos tinham que ter seu poeta profeta, e quem melhor do que Mahmud Darwich? Em 2004, Darwich foi a Damasco, e na sala Aljalá em Mezzeh, leu alguns dos poemas de Estado de sítio, para um público com mais de 3000 pessoas. Entre eles, estávamos Jumana e eu, minha namorada, que viria a ser mais tarde minha esposa — sem jamais deixar de ser minha namorada. Ela amava Darwich tanto quanto eu. Naquele dia, pensei em me aproximar de Darwich, cumprimentá-lo e lhe dizer que meu pai o considerava o profeta dos palestinos, mas logo mudei de ideia por duas razões: a primeira, por receio de seu temperamento impetuoso, e a segunda, porque meu pai já começava a ver que nos textos de prosa de Darwich havia tanta beleza como na poesia, sendo-lhe superior… às vezes.

A biblioteca do meu pai, a minha biblioteca e toda a nossa casa foram queimadas na guerra da Síria. Nossas anotações e comentários, feitos a lápis pelo meu pai, também foram queimados. Partimos, partimos para longe… para o Brasil. Em nossa nova casa, localizada numa cidade do interior de São Paulo, a cada visita que meu pai nos fazia, vindo de Beirute, o presente mais bonito era sempre um livro ou dois de poesia ou prosa de Darwich. Não raro, ele lamentava o fato de nossos filhos não poderem ler esses textos como fizemos meus irmãos e eu, porque os netos chegaram a este país ainda muito pequenos antes de aprenderem a ler e escrever em árabe. E nessa nova diáspora, o português tornou-se a língua nativa deles apesar de todos os nossos esforços para que o árabe permanecesse a sua língua materna, e assim, acabou se restringindo à comunicação dentro de casa, passando a ser a “língua da cozinha”. No entanto, meu pai — Allah yerhamu — ficou muito feliz quando soube do projeto desta editora, com a qual tentou contribuir o máximo que pôde até que a morte o levasse, porque desejava intensamente que seus netos conhecessem o “profeta dos palestinos”, e que pudessem ler seus poemas e textos, mesmo que fosse na “língua estranha”, que era como se referia ao português. Só assim, Darwich poderia permanecer em nossa casa.

Ahmed Abu Hasna

Ahmed Abu Hasna é o filho primogênito do jornalista e escritor palestino Nafiz Abu Hasna (1961– 2020), a quem é dedicada a edição brasileira de Memória para o esquecimento, de Mahmud Darwich.

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