por Jemima Alves

“O que quero dizer é que, nas discussões sobre o Oriente, este todo é uma ausência, ao mesmo tempo que sentimos o orientalista e o que ele diz como presença.”

Foi o que declarou Edward Said, em 1978, em seu seminal Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente. Texto que foi amplamente lido, interpretado e reinterpretado por diversas correntes críticas, sobretudo na área dos Estudos Pós-Coloniais. Nesta obra, Said traduziu a realidade que perdurou ao longo da história dos povos orientais — submetidos ao empreendimento colonial europeu, embora se detenha especificamente na história dos povos árabes —, que era a condição de ser definido pela palavra do Outro; no caso dos árabes, pela voz euro-americana. Entretanto, o problema apontado por Said não se restringe ao mero ato de definir o outro, mas ao fato de que se cria uma definição e se aplica ao Outro.

Essa definição que passa a integrar discursos em diversos campos do conhecimento ganha autoridade por meio de quem a enuncia, o Orientalista, e do lugar de onde é enunciada, isto é, dos países hegemônicos ocidentais. Esse movimento de uso da palavra vai apresentar os países árabes por meio das imagens do exótico, das odaliscas, do bárbaro, do terrorista, do fundamentalista religioso e todos aqueles clichês difundidos não só nas mídias, mas também, como apontado por Said, em diversos clássicos que compõem o cânon literário universal.

Na contramão desse movimento, como força de resistência, surge, na literatura árabe, o gênero pós-colonial, um contradiscurso àquilo que fora considerado um discurso de autoridade. Na literatura pós-colonial árabe, o escritor se propõe a apresentar uma outra versão da História e nos coloca diante de sujeitos silenciados — como os negros representados em Coração das Trevas (1899), na literatura colonial de Joseph Conrad — que protagonizam desde o seu lugar de fala, produzindo uma nova narrativa.

Nesse exercício literário de resistência, o escritor opta por transformar sua narrativa num espaço de provocação, criando assim uma nova estética. Por meio da linguagem e de elementos culturais, forma um caleidoscópio dentro dos limites do romance, representando o sujeito fragmentado que emerge do processo de colonização.

Ao introduzir anglicismos e francesismos em seu texto, ele questiona um domínio que ultrapassou os limites geográficos e se revela também na palavra. Produz significados e estética para além da simples introdução de vocábulos da língua do colonizador, enfatizando, nas sobreposições de idiomas, as hierarquias linguísticas que são edificadas, não só na vida cotidiana, mas também na produção literária.

No espaço do discurso, o escritor toca em questões delicadas que envolvem diversos aspectos do sujeito colonizado, sua relação com a alteridade e seus espaços. Revelando maturidade intelectual e discursiva, retomam debates importantes da história e da política dos países árabes, bem como das relações euro-americanas com o Oriente Médio. As obras são tecidas por meio de críticas latentes e desveladas tanto como um espaço de provocação e desconforto para os árabes quanto como uma forma de revisar e repensar políticas, tradições, culturas e identidades, e de resistir à imposição do poder estrangeiro ainda operante nas nações antes colonizadas.  

Tal empresa colonial — que apesar de, sim, ter propiciado algumas benesses, sobretudo aos mais abastados, e uma modernização tardia dos países tutelados — trouxe mazelas que permanecem, até hoje, entranhadas na realidade árabe, provocando o êxodo de sujeitos de sua pátria; sujeitos esses que, nas palavras de Taha Ben Jaloun, em Frutos da dor (2000), tornam-se  “estrangeiro[s] no país do outro e em si mesmo[s]”. Nesse conflituoso alheamento há também uma resistência ao retorno, pois talvez “haja, no retorno, humilhação e sombra de fracasso”, nas palavras de Laura Macdessi, em Tempo de migrar para a liberdade (2012). Ou, como descreve Tayeb Salih, com maestria, em Tempo de Migrar para o Norte (2004): quando se regressa ao nós, já não se é mais incluído.

Esses autores pós-coloniais trazem à tona diversas confusões que muitos ocidentais ainda fazem, por meio de generalizações, em relação às identidades orientais e o conhecimento que ostentam sobre sua contraparte árabe fundamentado na produção intelectual de orientalistas reiteradamente citados e criticados por Edward Said.  Ao representar diferentes nacionalidades árabes nessas obras, sobretudo por meio do registro dos seus variados dialetos, os autores buscam corrigir a ideia equivocada, cunhada no imaginário ocidental, de uma identidade árabe homogeneizada e genérica, e contrastar as possíveis identidades guardadas no “ser árabe”.

Assim, a literatura árabe pós-colonial, enquanto gênero literário poderia ser caracterizado como espaço de representação e, também, enquanto espaço da diferença, espaço de provocação. Provocação praticada para que se questione todas as formas de dominação e opressão a que esses povos ainda estão submetidos, seja ideológica, cultural ou política, por intermédio de governos nacionais controlados pelo ocidente euro-americano.

Mas mesmo operando como uma força de resistência importante para a revisão da história colonial dos países árabes, o novo gênero ainda sofre algumas sanções, pois mesmo sendo amplamente traduzido nos países do Norte, é manipulado com apagamentos culturais, explicações e exclusões de trechos inteiros. Tal medida reforça ainda mais sua relevância e seu potencial enquanto resistência política, pois tanto sua produção original quanto a respectiva tradução promovem reflexão e discussão, e possíveis revisões históricas valiosas para a sociedade.

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